Marginal, periférico ou divergente?

Salve!

Ontem, tivemos uma discussão bem interessante na Universidade das Quebradas. O foco desse fomento de opiniões críticas e diversas foi o manifesto “Manifestação da Literatura Divergente ou Manifesto Encruzilhador de Caminhos?”, do irmão Nelson Maca. É um longo texto, mas eu leria se fosse você. Enfim.

Tivemos a visita do mano Eddi MC, rapper e repórter do Canal Futura. Eddi fundou um dos primeiros grupos do Rap Nacional, o Nocaute, que fez bastante barulho por esse país. Foi ele quem iniciou a discussão, pontuando algumas coisas e fazendo uma pergunta provocativa a todos os “Quebradeiros”.

A abordagem do Nelson Maca – segundo o meu entendimento – gira em torno da questão de que a literatura, ou a cultura marginal, de uma maneira geral, não seria marginal, mas sim, divergente. Ok!

O que penso sobre isso: se eu faço arte, eu sou artista, certo? Hum… Então porque me chamam de artista marginal? Alguém chamou o Tom Jobim de artista zona sul? Não! A verdade é que eu sou da periferia, da margem e levanto essa bandeira com orgulho. Tom Jobim era o cara da zona sul e todos sabem disso. Onde quero chegar? Ora, a “marginalidade” já veio comigo ao nascer. Com o tempo me tornei um artista que vivia “à margem”.

Tá! Mas a minha arte é diferente do que se produz no show biz… Bem diferente! Isso a torna divergente? Talvez. O rap nasceu divergente, mas se tornou convergente por uma questão de política industrial fonográfica norte americana. Os rappers estadunidenses são convergentes, ao passo que a maioria dos brasileiros são divergentes. Isso até o “poder político cultural” do país decidir torná-lo mainstream, isto é, convergente, dentro de uma realidade divergente.

Veja bem, não estou dizendo que a divergência só pode existir na convergência, pelo contrário, a divergência sobrevive dentro da convergência, mas a convergência não sobrevive dentro da divergência.

O que se vê por aí é a mídia dizendo que o funk fomenta o sexo prematuro e a violência, dizendo que o rap é coisa de criminoso e maconheiro, dizendo que os escritores da periferia nada sabem… Estão dizendo por aí. A realidade é que, quando a mídia enxerga produto na divergência, ela trata de falar bem daquilo, como se fosse a última maravilha do mundo. Vide o funk! É mainstream nacional, enriqueceu as rádios FMs do país, enriqueceu a mídia convergente, enriqueceu DJs famosos e equipes de som, mas não enriqueceu os seus protagonistas. Nesse momento, a divergência não sobreviveu à convergência. Lamentável.

Na moral, não estou aqui pra mostrar uma finalizada opinião formada. Só quis abrir o espaço para que a discussão aconteça, de maneira construtiva e enriquecedora. O que você acha? Marginal, periférico ou divergente?

 

Abs

@PetterMC

Anúncios

6 pensamentos sobre “Marginal, periférico ou divergente?

  1. Essa discussão sempre dá panos pra manga – e facas ao abacaxi. Ops! “Facas ao abacaxi” já uma leitura divergente, pois interfere na rota normal do leitor, que este (re)conheça: para “descascar o abacaxi” é preciso usar faca. Um dito popular visto por outro ângulo, enfim. “Véi, disserte sobre esse asunto” surte o mesmo efeito: divergente ao simples “comentário”.

    Na Universidade das Quebradas esse é o tom corrente: artistas marginais, divergentes, periféricos. Desde a Semana de Arte de 1922 as ideias “marginais, divergentes” estão na praça: o convite a Semana levava desenho moderno de Di Cavalcanti, a poesia de Drumond poderia ser uma nota comum de jornal; Tarcila mostrava desenhos humanos “deformados”, os livros ganharam Arte: não eram mais aqueles “tomos”, de “capa dura”, de “cor única”.

    Coloriu, diversificou, o marginal ganhou – e entrou na mídia. Acredito que o RAP trouxe o “periférico”… Não pela temática social, que sempre esteve aí, mas por ser uma expressão eficaz de “combate”: contra a mídia, contra os meios de comunicação principalmente. E isso é notável pela importância que a própria mídia deu ao caso! Censurou, difamou, mandou prender vários rappers, só faltou mandar açoitar em praça pública! Uma divergência radical!

    Pergunte-se de onde vem o sucesso do RAP atual… Vem do “mas que linda estás”?, clássico do Black Juniors, ou se vem desde os Racionais MC’s? O tom contundente e ameaçador passou ao público um ar de verdade inabalável: no que foi reconhecido. Se MV Bill não usasse armas em público, se o vídeo “Só Deus pode me julgar” não usasse o nascimento de uma criança em oposição às mortas que eram cantadas – ele aprofundou a ideia até… entrar pro Faustão-Xuxa-Malhação-etc. O Planet Hemp foi contundente, até virar o Marcelo D2 do samba. Toda uma nova safra está aí: Dom L é especial. Mas a contundência é algo difícil…

    O Gas-PA, um MC combativo, pede ao RAP o respeito a essa trajetória de “divergência periférica”: mas parece que a maioria não quer fazer isso. Disse pensando nas várias Rodas de Rimas do Grande Rio. Parece que a fórmula deu espaço ao fazer arte, sem precisar coerência, contundência, divergência… O RAP perdeu uma das formas: a arte da “periferia”. Ou seja, o próprio Grande Mercado que o RAP pede pra entrar não vai se abrir sem contundência periférica. Temos bons rappers, mas o real sentido de MC, que abalou nos EUA, e tb abalou a mídia BR, não é uma proposta benvista. Quando o Maca falou em “divergente” pensou dessa forma. Faz um sarau de poesia falada, junto com o Opanijé – RAP forte.

    A “slam Poetry” tem sido vista como um “laboratória de divergências”, ganhado espaço em muitos lugares do RAP: nos EUA, Portugal, França. Em Sampa existe a ZAP, com a Estrela D’Alva brilhando pro mundo, no Rio existe o trabalho do quebradeiro Feijah’N Soul que faz poesia Slam – fora do RAP, alguns grupos de poesia marginal, que são bastantes contundentes na poesia falada. Num mundo multi-mídia, só um uma presença de palco contundente, presença marginal, periférica, só essa conseguirá subir a superfície da divergência.

    ____Fim da Dissertação________(hehehe!)

    Poeta Xandu [ZineØØ – B.Boy Press]

  2. É, mano… Eu gosto de fazer as coisas de maneiras diferentes. Cada seção desse blog tem um nome diferenciado. As categorias são “pautas”, os posts são “rapportagens”, o arquivo é “memórias de um mc” e o texto de comentário “véi, dissete sobre o assunto”.

    Hehe

    Viva a divergência!!

  3. a primeira coisa pro ambiente saudável é lembrar qye não existe só uma verdade e as que são divergentes não precisam ser iguais nem se anularem mas acordarem onde elas podem se entender, pois é um eterno conflito e isso é bom que seja, não existe estabilidade em coisas vivas, mas movimento.

    • Valeu Takita! mas… não falei em verdade como um conceito filosófico, até sublinhei “ares de verdade” – dentro de um combate desleal, a violência que acontece na periferia (ex: na zona sul as chances de existir um tiroteio e/ou bala perdida é 50% vezes menor) a mídia mostra como algo exterior, que nada tem a ver com a minha vida. Por isso, eu, como pensador, que vou pra faculdade, estou distanciado por coisas que acontecem só com os outros, lá longe, onde não frequento. A “verdade” q busquei para falar em divergência é aquela própria do Aedo, do Poeta, do atual rapper, capaz de usar um pouco do que é a “mídia para todos” para imprimir um acento mais vigoroso, oral-literário, expressão de palco – com a finalidade de trazer coisas urgentes: no caso q falei, é RAP divergindo da simplicidade q é a “pacificação” do jeito q o Estado/mídia apresentam. Mas no caso do Nelson Maca é apresentar um acento negro na poesia, como oposição a forma poética que costuma servir de guia aos novos poetas. A poesia-verdade é o bom combate. ABRAÇOS – XND

  4. Pingback: Debate nas Quebradas: um caldeirão! | Universidade das Quebradas

Véi, disserte sobre o assunto!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s